terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Das ternuras ao internato

Passou pouco mais de 1 ano desde o exame de especialidade e um pouco mais desde o fim do curso (nem sei ao certo quanto- acho que teria de fazer contas aos meses com os dedos até).
Rumámos a sítios diferentes durante o ano seguinte ao exame, o Ano Comum (será comum a palavra apropriada?), ainda que o objectivo inicial não fosse esse.
Hoje, à distância, afirmo categoricamente: não foi por isso que deixámos de ser felizes, amigos ou sequer deixámos de ser cúmplices. De modo algum.

Há uns dias, num dos habituais reencontros de amigos (muitos mais do que simples colegas de profissão, hoje somos primeiro que tudo amigos), lembrámo-nos com prazer do passado. De um passado não muito distante ainda. Desse que começa a dar para fazer contas de dedos. Que nos uniu e une.
Dessa mesma altura, ficaram as tardes (e manhãs, noites e algumas madrugadas) que pareciam infindáveis de estudo. De algum estudo. Regrado, aquilo de que mais me orgulho hoje. As incontáveis páginas do "Harry", os almoços, lanches e jantares partilhados. Às vezes sempre as mesmas caras, sempre o mesmo objectivo (dias houve em que não o cumprimos...e ainda bem), sempre a mesma rotina (ou talvez não). As férias em Quiaios. As danças dos leitores de mp3 para aqui e para acolá, enrola e desenrola fios. Uns hoje renovados, outros guardando mazelas para todo o sempre (como o meu). Os inúmeros locais onde alimentámos a nossa cumplicidade (uma vez mais, os dedos- nem sei se chegariam para os contar).
Sim, a companhia enquanto se traçam metas, se definem objectivos, é o que nos enraíza, nos dá força.
Nem sei se será o momento para dizer sequer se o objectivo foi atingido, de tão embrionária é a fase em que nos encontramos. Fizemos as nossas escolhas, estamos onde quisemos dentro dos sítios onde poderíamos estar (não será sempre assim?). E apenas nessa medida, cumpre-se o objectivo primordial. Temo-nos. A nós próprios e uns aos outros.

Por altura do longo estudo para o exame, e em jeito de brincadeira sem compromisso (existirão brincadeiras melhores que as sem medo, sem factura, sem compromisso?), criámos um blog: o Dr. Harry. O que era então o grande dia chegou finalmente e deixámos de escrever nele nesse preciso momento em que findou o seu propósito: a preparação para o exame. Ainda lá está, talvez porque nenhum de nós tenha tido coragem de o apagar, talvez pelo prazer que nos dá de lá voltar sorrateiramente às vezes. Nem sei. Quem sabe até de o partilhar orgulhosamente com outros (como eu já o fiz).

Oliveira de Azemeís, Lisboa e Setúbal. Foram estes os 3 locais por onde andámos no Ano Comum. À deriva como só se pede a quem sabe encontrar rumos.
E hoje e nos próximos anos, estamos de volta àquilo que se pode chamar de "terras natais" (Coimbra e Aveiro). Felizes também em parte por isso.
Crescemos alguma coisa (é um facto), mas ainda assim continuamos a achar que temos um longo caminho a percorrer (felizmente não se esgota aqui a nossa caminhada).
Ainda temos medos (acho até que são mais hoje do que há 1 ano...), ainda temos sonhos (...cada vez mais?), ainda pensamos que a Medicina (tal qual outras coisas na Vida) é algo que só faz sentido se sentida, partilhada, reflectida, vivida e ponderada. Misto de paixão e razão, como em quase tudo. Dias de felicidade e desilusão, de dar alento à vida mas também de aceitar e de a deixar partir quando assim tem de ser.

E em Coimbra (a cidade onde nos conhecemos), reencontrámo-nos então na véspera do início do internato da especialidade. Essa mesma coisa que deslumbrávamos bem ao longe há ano e meio (ou qualquer coisa que o valha) então. Por essa altura, brincámos que iríamos todos para o Pico (não fomos), que iríamos parar todos em Saúde Pública (também não fomos). Nem sei o que isso representaria em nós, se sequer viria daí uma grande hecatombe (ok, assim à primeira vista, ainda acho que sim...esse seria o pior cenário...).
A realidade foi então outra. Hoje temos 1 proto-neurologista nos HUC e 2 proto-internistas, uma nos Covões e outro em Aveiro. Em formação, tal qual coisa de padeiro, mais concretamente na fase em que se amassa com murros em todas as direcções. Pancadinhas, vá. Para depois, entrar no forno e crescer. Assim espero.

Não me recordo ao certo como me surgiu a ideia ou por que carga de água me ocorreu propor tamanha empreitada, mas sei que à beira de entrarmos num novo mundo, apeteceu-me lançar um desafio comum:
"Hei, tenho uma proposta para fazer".
"E que tal se fizéssemos um novo blog, com as aventuras ao longo do internato da especialidade?".
Senti no ar aquela mesma cumplicidade, a clara aceitação do desafio.
Mais: podia ter sido dito por qualquer um de nós de tão previsível que era.

Não pretendemos embarcar em pseudo-remakes saudosistas (dizem que os remakes saudosistas só o são passados 10-15 anos e nós ainda estamos na crista da onda, a gozar o sucesso do 1º e único hit). Somos os mesmos mas, por estarmos mais velhos, por termos novos desafios à espreita, sentimo-nos também diferentes.

Não foi preciso muito tempo para acharmos o nome: INTERNURAS, sugeriu o Mário.
Perfeito, pensei eu na altura. Perfeito penso eu hoje ainda.
Perfeito, terá pensado também a Inês.
Um nome que ilustra bem a ingenuidade com que partimos para esta nova campanha, acho. Não podia ser melhor.
In-ternuras. De nós, para nós. As mesmas ternuras que nos unem.

Temo que o projecto seja arrojado. A disponibilidade para o manter é pois uma incógnita. No entanto, a certeza de que não nos faltará assunto.
Qualquer um de nós tem no mínimo, 5 anos de (in)ternuras à sua frente, até poder ser médico a sério. Ou pelo menos, especialista. Médico, diz a cédula, já o somos. E, se para o ser for preciso "apenas" bastante gosto, empatia q.b, alguns conhecimentos (e a certeza que nunca seremos donos da sua totalidade) e dedicação, então arriscar-me-ia a dizer que já o somos. Há já algum tempo.

Assim desejo.
Que comecem então as novas ternuras. As do internato: IN-TERNURAS.